A Turquia saltou da 26ª para a 1ª posição no destino do gás natural e hidrocarbonetos gasosos exportados pelo Brasil em 2025, absorvendo 57,6% do total.
A Turquia não estava nem no radar há um ano. Em 2024, o país comprou US$ 92 em gás natural e outros hidrocarbonetos gasosos do Brasil — um valor tão residual que mal aparece nas planilhas do MDIC ComexStat. No fechamento de 2025, esse número havia se transformado em US$ 37,9 milhões, e a Turquia havia se tornado o principal destino dessa categoria, com quase 57,6% do market share total de exportação brasileira.
Não é salto. É teleporte.
Antes de 2025, o Brasil praticamente não exportava gás e hidrocarbonetos gasosos para Ancara. A posição #26 com apenas US$ 92 em FOB era mais sintoma de uma transação pontual do que de uma relação comercial estabelecida. O mercado turco comprava esse insumo de outras origens — majoritariamente da Rússia, do Azerbaijão e do Irã, via gasodutos regionais.
O que mudou foi a escala da demanda turca por gás liquefeito de petróleo (GLP) e outros hidrocarbonetos no mercado spot internacional. Com a diversificação forçada das fontes europeias após 2022, a Turquia se reposicionou como hub regional de gás. O país construiu terminais de regaseificação flutuante no Mar Egeu justamente pra não depender de gasoduto. O Brasil, com capacidade de exportação via terminais de GLP no porto de Santos, emergiu como fornecedor alternativo competitivo nesse novo arranjo.
Pra indústria petroquímica brasileira e pra trading companies que operam esse segmento, o dado muda o cálculo de capacidade logística e de precificação de médio prazo. O porto de Santos é o principal ponto de saída de GLP e gás liquefeito no Brasil, com cais especializados operados pela Ultracargo e pela NGL. A demanda turca no nível de 2025 exige contratos de médio prazo com janelas de carregamento definidas — o mercado spot puro não absorve esse volume com regularidade.
A concentração em um único destino — quase 58% do total exportado — também é um sinal de alerta. Se a Turquia renegociar contratos ou diversificar fornecedores novamente, o impacto sobre os volumes brasileiros será imediato. Mercados com share tão concentrado raramente sustentam esse padrão por mais de dois ciclos anuais.
A tendência imediata depende de dois fatores independentes. Primeiro, o quanto a Turquia consegue repor o GLP via fontes tradicionais (Rússia, Casaquistão) à medida que geopolítica europeia se estabiliza. Segundo, a competitividade do real frente ao dólar: exportação de gás liquefeito é precificada em USD, mas custos de armazenagem, movimentação portuária e mão de obra local são em reais. Quando o câmbio favorece o exportador, os contratos se fecham mais fácil.
O setor petroquímico brasileiro tem capacidade instalada para sustentar o volume de 2025 — mas apenas se os terminais especializados no porto de Santos não encontrarem gargalo logístico com a demanda doméstica crescente de GLP residencial, que ANP monitora mensalmente.
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