No primeiro quadrimestre de 2026, a Turquia passou do 26º para o 1º lugar no destino do gás brasileiro, absorvendo 57,6% do total exportado — US$ 37,9 mi.
A Turquia não figurava em nenhum mapa relevante de gás brasileiro há doze meses. Ocupava a #26 posição entre os destinos de gás de petróleo e hidrocarbonetos gasosos, com US$ 92 em exportações no primeiro quadrimestre de 2025. Número tão pequeno que caberia num depósito de gasolina de posto de beira de estrada. No primeiro quadrimestre de 2026, esse mesmo país absorveu US$ 37,9 milhões — e se tornou o #1 destino, com 57,6% de todo o gás exportado pelo Brasil no período.
A escala do salto não tem precedente recente nesse segmento. A variação de FOB foi de cerca de 413 mil vezes — não é erro de digitação. A Turquia não cresceu gradualmente: passou de comprador residual a parceiro dominante em um único ciclo comparativo. O share de 57,6% é especialmente relevante porque sinaliza concentração, não apenas volume. Mais da metade das exportações brasileiras de gás do quadrimestre foram para um único destino que, doze meses antes, era estatisticamente irrelevante.
O ângulo correto aqui não é "crescimento" — é estreia comercial com domínio imediato. Esse padrão acontece quando um comprador específico (refinaria, distribuidora, trading) fecha um contrato de fornecimento estruturado, e não quando há demanda spot difusa. Os dados do gás e hidrocarbonetos no MDIC ComexStat apontam que o salto ocorreu de forma concentrada no quadrimestre, sem distribuição gradual ao longo dos meses anteriores. Isso reforça a leitura de contrato bilateral, não de desenvolvimento orgânico de mercado. A Turquia tem expandido sua capacidade de regaseificação nos últimos anos, com terminais em Aliağa e Marmara Ereğlisi processando GNL importado. A janela para fornecedores alternativos ao GNL russo e do Oriente Médio se abriu após 2022 — e o Brasil, com capacidade de exportação de derivados de petróleo pela Petrobras e pelo complexo de Paulínia, está na rota.
A questão prática é se esse volume se sustenta ou se foi pontual. Contratos estruturados de GNL costumam ter cláusulas de volume mínimo e prazo; se for esse o caso, o padrão deve se repetir nos próximos quadrimestres. Mas a concentração de 57,6% num único destino é, por si só, um sinal de alerta operacional. Se a Turquia reduzir compras por qualquer motivo — câmbio, política de diversificação de fornecedores, ajuste de demanda interna —, o impacto sobre as exportações totais do segmento seria imediato e expressivo. Fluxos tão concentrados criam dependência bidirecional.
Pra exportadores: avaliar a natureza contratual do fluxo (spot vs. contrato de prazo) antes de calibrar capacidade logística para o segundo semestre de 2026; documentar a jornada da Turquia como case de abertura de mercado para outros destinos europeus em potencial, como Grécia e Bulgária. Pra importadores: monitorar se o desvio de volume para a Turquia reduz oferta disponível para compradores domésticos brasileiros no curto prazo; considerar janelas de recontratação para o segundo semestre antes que eventual expansão de demanda turca pressione preços.
Fonte: MDIC ComexStat A última vez que vimos um país saltar do obscuro para 57% de participação num único quadrimestre foi no ciclo de petróleo cru para a China em 2020. Também começou parecendo pontual.
Paraguai abastece 98,9% da energia elétrica importada pelo Brasil
Risco de Concentração
Açúcar brasileiro ao Sri Lanka salta dez vezes com Índia fora
Agronegócio
Aço laminado sul-coreano: importações do Brasil triplicam
Anomalia
Importação de flocos de batata da Holanda sobe 400 vezes
Agronegócio
Holanda domina 99,3% das exportações de plataformas flutuantes
Aeroespacial e marítimo