O Brasil importou 202 mil toneladas de sorgo do Paraguai em 2025 — quase dez vezes a média histórica do corredor, em pico raro numa rota quieta.
O Brasil importou 202.486 toneladas de sorgo do Paraguai no fechamento de 2025. A média histórica desse corredor é de 21.923 toneladas por ano. O volume registrado foi perto de dez vezes maior que o padrão anterior — um salto que coloca o Paraguai no radar de qualquer analista de grãos que acompanha o mercado sul-americano. O sorgo não costuma gerar manchete. É a commodity de segundo plano da ração animal: o substituto barato do milho quando o preço do cereal principal sobe demais. Mas um volume dessa magnitude, vindo de um corredor que operava no piloto automático há anos, merece atenção.
A hipótese mais direta apunta ao preço do milho. Quando o milho encarece — seja por quebra de safra, seja por demanda aquecida da China —, frigoríficos e integradoras migram parte da formulação de ração para o sorgo, que costuma ser cotado com desconto. O ciclo 2024/25 foi marcado por preços de milho acima da média em alguns trimestres, o que tipicamente estimula a compra de substitutos. A proximidade logística também conta. O Paraguai tem fronteira seca com Mato Grosso do Sul e Paraná. Frete rodoviário competitivo pode ter viabilizado volumes que antes não fechavam conta. A política tarifária do Mercosul zera a alíquota para o sorgo intrazona — sem barreira tarifária, o único freio era o preço relativo.
Há ainda a hipótese de diversificação de fornecedor. O Brasil historicamente importa sorgo dos Estados Unidos e da Argentina. Uma janela de preço favorável no Paraguai, combinada com disponibilidade logística, pode ter atraído compradores brasileiros que testavam o corredor pela primeira vez em escala relevante.
O Brasil é o maior mercado consumidor de ração animal da América Latina. A demanda por sorgo como substituto do milho na nutrição de aves e suínos cresce quando a Taxa Equivalente de Carboidrato favorece a troca. Dados do CONAB indicam que o sorgo representa entre 5% e 10% da formulação de ração em anos de alta do milho — percentual que pode dobrar quando o spread ultrapassa certo patamar. O Paraguai, por sua vez, expandiu área plantada de sorgo nos últimos ciclos, em parte como rotação de soja. A produção excedente buscava saída na Argentina e na Bolívia. O Brasil, com sua indústria de aves e suínos concentrada no Paraná e em Santa Catarina, é o destino natural quando o preço fecha. O volume de 2025 sugere que esse fechamento aconteceu de forma expressiva.
Sem dados acumulados de 2026 ainda disponíveis para esse corredor, é cedo para dizer se o patamar se sustenta. O volume de 2025 pode refletir compras concentradas em janelas pontuais — um único grande comprador, uma safra excedente específica. Ou pode marcar o início de um corredor recorrente. O dado que vai dizer: o spread milho-sorgo nos próximos trimestres. Se o diferencial se mantiver acima do limiar de formulação, os compradores voltam. Se o milho baratear, o Paraguai volta ao volume histórico.
Pra importadores: Monitorar o spread milho-sorgo no mercado interno. Se o diferencial se mantiver acima de R$ 30/t, o corredor paraguaio tende a permanecer ativo. Avaliar contratos de longo prazo com fornecedores paraguaios antes que outros compradores precifiquem o corredor. Pra exportadores: O crescimento da demanda brasileira por sorgo abre janela para originadores que operam em Concepción e Alto Paraná — regiões com excedente e logística direta para o Sul e Centro-Oeste do Brasil. Quem operava este corredor em 2022 não acreditaria que o Paraguai chegaria a este volume.
Fonte primária: MDIC ComexStat. Dados de referência setorial: CONAB.
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