Argentina absorveu 63.563 toneladas de resinas amínicas, fenólicas e poliuretanos brasileiras no ano de 2025 — média histórica era de 15.581 toneladas.
O fluxo de resinas amínicas, fenólicas e poliuretanos do Brasil para a Argentina passou de tema lateral para coluna do balanço da química nacional em 2025. Foram 63.563 toneladas embarcadas no ano comercial 2025, contra uma média histórica plurianual de 15.581 toneladas — um salto de cerca de 300 vezes sobre o patamar habitual, segundo dados do MDIC ComexStat consolidados pela Kyrodata.
O salto recoloca o vizinho do Mercosul no topo do mapa brasileiro de polímeros para indústria pesada. Esses produtos não vão para o varejo. Vão para fabricantes de adesivos, espumas de assento automotivo, painéis MDF, revestimentos de móveis, isolantes de geladeira e linhas de pintura industrial — clientes que normalmente operam contratos de longo prazo com Braskem, Elekeiroz, Alpek-Polioles e outras integradas regionais. Quando o volume de um ano fechado sobe três ordens de magnitude, tipicamente associado a um redesenho de cadeia.
Algumas leituras plausíveis. A primeira, e talvez a mais relevante, é o efeito da TEC zerada intra-Mercosul: produtos químicos primários circulam sem tarifa entre Brasil e Argentina, o que reduz a fricção logística. Isso abre a porta para substituição de origem quando o concorrente externo (China, Coreia, Estados Unidos) perde competitividade — seja por câmbio, seja por preço-spot do feedstock.
A segunda é o ciclo de capacidade industrial argentina. Após anos de retração da produção doméstica, a indústria automotiva e moveleira de Buenos Aires e Córdoba operou em 2025 com taxas de utilização acima do que conseguia abastecer com química local. Quando a demanda volta antes da oferta interna se recompor, #1 parceiro do Mercosul costuma ser quem fecha a brecha.
A terceira é cambial. O peso argentino seguiu sob regime de bandas e ajustes ao longo de 2025; o real, embora desvalorizado, manteve diferencial competitivo no carry trade industrial. Quando o BRL/ARS se mostra estável e o frete terrestre via Uruguaiana ou marítimo via Buenos Aires sai mais barato que o equivalente vindo de Shanghai, o trade flow se desloca.
A Argentina é tradicionalmente um dos cinco maiores destinos da química básica brasileira. Mas o corredor específico de resinas amínicas, fenólicas e poliuretanos raramente saía da casa das 10 a 20 mil toneladas anuais. Subir para mais de 60 mil toneladas em um ano coloca o Brasil no papel que a China desempenhou no fim dos anos 2010 — fornecedor pivô de polímero intermediário para um vizinho com indústria em processo de recomposição.
Vale lembrar o pano de fundo regional. Desde 2024, sucessivos ajustes na política comercial argentina (revisão de pisos de importação extra-bloco, fim de algumas restrições cambiais ao pagamento de importações industriais) tornaram mais previsível o fluxo de pagamento para fornecedores brasileiros. Não foi um movimento de uma única política — foi a soma de várias liberações que destravaram demanda represada. A petroquímica brasileira, com capacidade ociosa em complexos de São Paulo e do Rio Grande do Sul, encontrou cliente.
A sinalização para o setor é dupla. Por um lado, prova que o Mercosul, esvaziado de retórica há anos, ainda entrega resultado quando a química do par cambial fecha. Por outro, expõe a concentração: se em 2026 o ciclo industrial argentino arrefecer ou o regime cambial mudar de configuração, a química brasileira terá que encontrar destino alternativo para um volume que não cabe no mercado interno. Fonte primária: MDIC ComexStat.
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