O Reino Unido passou de oitavo para primeiro lugar nas exportações brasileiras de celulose para papel tissue, com FOB de US$ 21,8 mi e share de 18,1%.
O Reino Unido não era nem top-5 nas exportações brasileiras de celulose para papel higiênico e papel-toalha há menos de dois anos. Em 2024, figurava em #8 com US$ 2,9 mi e participação de 3,6%. No fechamento de 2025, era #1 — com US$ 21,8 mi e fatia de 18,1%. Sete posições em um ano. Sem aviso.
A variação de FOB foi de mais de 7 vezes no período. Nenhum outro destino na série recente fez esse movimento em janela tão curta. O segundo e terceiro colocados somados não chegam à mesma receita que o Reino Unido sozinho. Isso muda o perfil exportador do setor de maneira que não é trivial ignorar.
O produto em pauta — celulose fluff e mantas de fibra para conversão industrial de tissue — tem demanda puxada por capacidade fabril no destino, não por consumo final imediato. Quando uma planta europeia amplia linha de produção ou troca fornecedor de matéria-prima, o efeito no Comex aparece de uma vez. É razoável que parte desse salto reflita a entrada em operação ou expansão de alguma linha de conversão no mercado britânico.
Para o exportador brasileiro, 18,1% de concentração num único mercado é um nível de atenção. Não é risco imediato — o Reino Unido é comprador sólido, com histórico de pagamento e infraestrutura portuária via Southampton e Felixstowe. Mas significa que qualquer interrupção no lado do comprador — ajuste regulatório, revisão de fornecedor, câmbio libra-dólar adverso — aparece direto na receita do setor.
Do ponto de vista logístico, a rota Santarém/Belém → Atlântico Norte → portos britânicos tem frete razoavelmente estável em comparação com destinos asiáticos. O prazo de trânsito médio fica entre 18 e 22 dias, compatível com estoques de giro mensal que conversores industriais costumam manter. A questão é que essa rota depende de disponibilidade de navio — em momentos de pressão no Atlântico Norte (como ocorreu no segundo semestre de 2024), o spread de frete pode comer margem rapidamente.
Se o salto for sustentado — ou seja, se a demanda britânica por celulose tissue brasileira refletir uma mudança estrutural de fornecedor (antes Europa Central ou Escandinávia, agora América do Sul) —, o segmento entrará em 2026 com fluxo diferente. O Kyrodata permite monitorar mês a mês se o acumulado confirma ou corrige a tendência. O risco oposto também existe: compras concentradas num único ano podem refletir estoque estratégico, não demanda recorrente. Se o parceiro britânico estiver formando posição para dois ou três anos, o comparativo de 2026 vai piorar — independentemente da qualidade do produto ou da competitividade do preço brasileiro.
A última vez que vimos esse padrão de concentração repentina num único destino europeu foi em 2015, quando a Alemanha absorveu quase 20% das exportações de determinada fibra de papel em menos de 18 meses — e depois normalizou para menos de 8% no ciclo seguinte. A curva atual tem o mesmo formato. Quem não se preparou para os dois lados da curva pagou o preço.
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