Brasil encerrou 2025 com 317,5 mil toneladas de automóveis exportados à Argentina, mais que o dobro da média histórica do corredor.
O Brasil encerrou 2025 exportando 317.527 toneladas de automóveis de passeio à Argentina — o equivalente a mais que o dobro da média histórica plurianual de 145,3 mil toneladas para esse corredor. O salto coloca 2025 entre os anos de maior volume já registrados entre os dois vizinhos no comércio automotivo. O dado vem do MDIC ComexStat e cobre o fluxo completo do ano. A desempenho surpreende sobretudo porque a Argentina atravessou 2024 em contração econômica severa, com consumo doméstico pressionado pelas reformas do governo Milei. O ciclo de retomada que se abriu no segundo semestre daquele ano parece ter chegado, com força, nas linhas de montagem brasileiras.
A primeira hipótese é a recuperação da demanda argentina por bens duráveis. Após a recessão de 2023-2024, empresas e consumidores represaram compras. Quando a economia voltou a crescer — ainda que de forma desigual —, o crédito veicular voltou a circular e o estoque de automóveis zero-quilômetro nos concessionários encolheu. A segunda hipótese envolve o câmbio. A desvalorização do peso argentino foi gradualmente absorvida pelo mercado ao longo de 2025, e o diferencial competitivo dos automóveis fabricados no Brasil — especialmente em São Bernardo do Campo, Indaiatuba e Betim — tornou as exportações via acordo automotivo do Mercosul relativamente mais atrativas.
Há também um ângulo de cadeia produtiva: parte dos veículos registrados como exportações pode refletir transferências intra-grupo entre montadoras que operam nos dois países, como Stellantis e Volkswagen, rebalanceando estoques entre filiais conforme a demanda local.
O corredor Brasil-Argentina é o maior eixo automotivo do hemisfério sul. As exportações de automóveis do Brasil para o país vizinho são reguladas pelo ACE-14, o acordo automotivo bilateral dentro do Mercosul, que define quotas e coeficientes de conteúdo regional. Qualquer salto de volume dessa magnitude normalmente envolve negociação prévia dos coeficientes — o que sugere que parte deste fluxo foi planejado entre as montadoras e referendado pelos governos. O Porto de Buenos Aires e o terminal de Zárate são os principais pontos de entrada dos veículos brasileiros. A logística ferroviária e rodoviária do corredor está consolidada, o que reduz o tempo de trânsito e mantém os custos de CIF competitivos.
A Argentina fechou 2024 com contração de aproximadamente 2,8% do PIB, segundo dados do Indec, mas já mostrava sinais de recuperação no 4º trimestre. O governo Milei manteve a âncora cambial do crawling-peg e abriu gradualmente as restrições às importações — movimento que beneficiou, entre outros setores, os automóveis brasileiros que chegam ao país ao abrigo do acordo bilateral. No Brasil, o setor automotivo teve um dos melhores anos de produção da última década. A Anfavea registrou recordes de licenciamento no mercado doméstico e capacidade ociosa relativamente baixa nas plantas do ABC Paulista. Esse contexto favoreceu a alocação de produção excedente para exportação.
Pra exportadores: avaliar a sustentabilidade do coeficiente ACE-14 para 2026 antes de expandir capacidade dedicada ao corredor argentino — renegociações bilaterais ocorrem anualmente e podem ajustar as quotas para baixo caso o desequilíbrio da balança automotiva bilateral aumente. Pra importadores: monitorar a evolução do crawling-peg argentino e a abertura do crédito veicular nos próximos trimestres; uma reversão da política cambial em Buenos Aires pode comprimir margens rapidamente nos contratos de médio prazo. Nem os mais otimistas do setor projetavam este número em janeiro de 2025. O corredor seguiu sua lógica própria.
Fonte primária: MDIC ComexStat.
Frango brasileiro ao Haiti bate 48 vezes a média histórica
Paraguai abastece 98,9% da energia elétrica importada pelo Brasil
Risco de Concentração
Açúcar brasileiro ao Sri Lanka salta dez vezes com Índia fora
Agronegócio
Aço laminado sul-coreano: importações do Brasil triplicam
Anomalia
Importação de flocos de batata da Holanda sobe 400 vezes
Agronegócio
Holanda domina 99,3% das exportações de plataformas flutuantes
Aeroespacial e marítimo