De US$ 30 a US$ 195 mi no acumulado de 2026: a China saiu do posto 68 para liderar exportações brasileiras de oleaginosas com 32,4% de share.
No primeiro quadrimestre de 2025, a China figurava na 68ª posição entre os destinos das exportações brasileiras de sementes e frutos oleaginosos — segmento que inclui gergelim, girassol, linhaça, mostarda e outras culturas fora da soja. O FOB era de US$ 30, não US$ 30 mil. Trinta dólares. Uma estreia comercial tão discreta que mal aparecia nas tabelas.
Um ano depois, o cenário é irreconhecível.
No acumulado até abril de 2026, as exportações brasileiras desse grupo de sementes oleaginosas para a China atingiram US$ 195 milhões — crescimento que os dados descrevem como cerca de 7 milhões de vezes ante o período anterior. O share saltou para 32,4%, posicionando a China como principal destino do Brasil nessa categoria, acima de qualquer outro comprador.
O número absoluto é expressivo para um mercado de nicho: US$ 195 milhões no acumulado de quatro meses coloca esse fluxo entre os maiores do setor de oleaginosas não-soja em toda a série histórica do MDIC.
O código SH4 1207 agrega sementes oleaginosas que não se enquadram em capítulos dedicados — na prática, produtos como gergelim, linhaça, cártamo e sementes de mostarda lideram esse fluxo nas exportações brasileiras. A demanda chinesa por gergelim, em particular, tem crescido estruturalmente: a China é o maior consumidor global e historicamente importa de fornecedores africanos e do Oriente Médio.
A hipótese mais plausível para o salto no acumulado de 2026 é substituição de origem: com instabilidade de oferta em produtores africanos tradicionais — Sudão, Etiópia, Tanzânia — e maior rastreabilidade exigida pelo mercado alimentício chinês, o Brasil emerge como fornecedor alternativo com certificação de qualidade e logística consolidada via porto de Santos.
O câmbio ajudou. A desvalorização do real no primeiro trimestre de 2026 melhorou a competitividade do FOB brasileiro frente a concorrentes que cotam em dólar ou euro.
Um único comprador com 32,4% de share é uma concentração que qualquer gestor de risco de trading company reconhece como relevante. O lado positivo: abre canal, escala volume, cria histórico de fornecimento. O lado vulnerável: qualquer mudança de política de importação chinesa — tarifa, barreira fitossanitária, preferência por fornecedor alternativo — impacta um terço do mercado de um golpe.
O ciclo do milho ao Iraque em 2023 mostrou como esse tipo de abertura pode ser fulgurante e efêmera. Não significa que o canal sino-oleaginosas vai fechar, mas o precedente pede humildade sobre projeções de longo prazo.
A comparação com outros fluxos agro ajuda a calibrar a surpresa. Na soja, a China já respondia por perto de 80% antes de o fluxo ser monitorado como risco de concentração. Em oleaginosas menores, 32% já é um threshold que muda o planejamento de escoamento. Exportadores que hoje vendem gergelim majoritariamente para Ásia-Pacífico via traders japoneses ou coreanos precisam recalibrar se o canal direto China-Brasil se torna mais rentável. Câmbio e custo de intermediação são os dois parâmetros a modelar antes da próxima safra.
Pra exportadores: Verificar certificação fitossanitária junto ao MAPA para os códigos de gergelim e linhaça — compradores chineses de alimentos exigem rastreabilidade lote a lote. Contratos plurianuais com cláusula de preço indexado ao câmbio BRL/USD reduzem exposição a oscilações de margem. Evitar concentrar mais de 40% da carteira num único destino enquanto o canal está em fase de consolidação.
Pra importadores: O aumento de demanda externa por gergelim e oleaginosas similares pode pressionar preços no mercado interno de insumos para a indústria de alimentos. Tradings que importam esses produtos para revenda no Brasil devem monitorar disponibilidade de safra e possível elevação de piso de preço no atacado.
Fonte: MDIC ComexStat
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