Com HHI de 0,992 e US$ 778,5 mi em compras no ano, o Brasil importa peixes frescos de apenas 4 parceiros — e o Chile responde por quase tudo.
O Brasil movimentou US$ 778,5 mi em importações de peixes frescos ou refrigerados em 2025 — e 99,6% desse valor veio de um único fornecedor: o Chile. Quatro países participam do fluxo. Três dividem entre si o 0,4% restante. Em qualquer análise de concentração de cadeia de suprimentos, esse número é extremo.
O índice Herfindahl-Hirschman para essa cadeia chegou a 0,992 — numa escala onde 1,0 é monopólio absoluto. Para fins práticos, o mercado brasileiro de peixe fresco importado já funciona como bilateral: Chile de um lado, Brasil do outro. Os outros três parceiros com fluxo positivo são irrelevantes do ponto de vista de volume e de capacidade de substituição a curto prazo.
Essa geometria não é nova nem acidental. O Chile tem vantagem estrutural de distância, acesso a espécies de água fria de alto valor — salmão-do-atlântico, truta arco-íris, corvina — e uma indústria aquícola consolidada com integração vertical: das fazendas de cultivo às câmaras frigoríficas de exportação. O produto chega fresco ao Brasil com shelf life suficiente para o varejo premium porque a distância é menor do que a de qualquer produtor do Atlântico Norte.
A aquicultura chilena representa um dos maiores setores de salmão do mundo, ao lado da Noruega. Enquanto noruegueses dominam as importações europeias e asiáticas, o Chile abastece América do Sul com custo logístico menor — o transporte marítimo pelo Pacífico Sul tem vantagem de frete sobre origens do Atlântico Norte. Do lado brasileiro, a demanda por peixes frescos de alto padrão cresceu consistentemente desde a pandemia, quando o consumo de proteína de qualidade se deslocou do food service para o varejo. Redes de supermercados premium expandiram o espaço de pescados frescos; restaurantes de sushi e peixaria especializada aumentaram o ticket. O câmbio não ajudou — um real mais fraco torna o produto chileno mais caro em reais — mas a demanda absorveu a pressão de preço.
A concentração também tem explicação histórica. O Chile foi um dos primeiros países a assinar acordo de livre comércio com o Brasil no âmbito do Mercosul ampliado, o que facilitou o desenvolvimento de rotas logísticas dedicadas ao produto refrigerado. Quebrar essa estrutura exigiria anos de investimento por parte de um novo entrante.
Dependência de 99,6% em um único fornecedor é risco de single-point-of-failure. Dois vetores merecem atenção imediata. O primeiro é sanitário: o vírus ISA — anemia infecciosa do salmão — tem causado episódios de mortalidade massiva em fazendas do sul do Chile, com capacidade de interromper exportações em 90 dias dependendo da escala do surto. O segundo é regulatório: as normas ambientais chilenas sobre densidade de cultivo e uso de antibióticos estão sob pressão crescente por parte de ONGs e da UE, e mudanças podem reduzir a capacidade produtiva exportável a médio prazo. Importadores brasileiros sem fornecedor alternativo habilitado no MAPA estão operando sem rede para ambos os cenários.
O volume em jogo não é pequeno. Com US$ 778 mi movimentados, uma interrupção parcial de 20% da oferta chilena seria um problema de abastecimento perceptível no varejo — especialmente em redes que operam com estoque fino e entregas just-in-time.
Pra importadores: habilitar pelo menos um fornecedor alternativo — Noruega, Peru ou Canadá — junto ao MAPA nos próximos 6 meses. Não como substituto de volume, mas como contingência operacional para o caso de interrupção sanitária ou logística.
Pra importadores: revisar contratos de fornecimento com cláusulas de force majeure específicas para eventos sanitários aquícolas — o ISA e o ISAV são risco real no sul do Chile e podem parar exportações em semanas.
Fonte: MDIC ComexStat
Basta um surto de ISA nas fazendas do sul do Chile para que US$ 775 mi em proteína importada sumam das gôndolas brasileiras em dois meses.
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