Chile saltou do #9 para o #1 no ranking de destinos do negro-de-carbono brasileiro em 2025, com FOB subindo de US$ 244 mil para US$ 7,9 milhões e market
O Chile não aparecia no radar das exportações brasileiras de negro-de-carbono (SH4 2803) em 2024 — nona posição, 0,8% de participação, US$ 244.647 em FOB. Em 2025, o quadro mudou radicalmente: o país andino assumiu o primeiro lugar com 55,1% de market share e US$ 7,9 milhões em valor FOB. O salto é de 31 vezes em valor nominal dentro de um único ano.
O negro-de-carbono — ou carbon black — é uma forma de carbono particulado produzida pela combustão incompleta de hidrocarbonetos. Tecnicamente, trata-se de material diferente da fuligem comum: é fabricado industrialmente com especificações controladas de granulometria, área de superfície e estrutura. Seus usos principais são como agente de reforço em pneus (responsável por cerca de 70% do consumo global), pigmento em tintas e plásticos, e condutor elétrico em polímeros especiais.
O Brasil tem capacidade produtiva de negro-de-carbono concentrada em plantas petroquímicas, majoritariamente no polo de Camaçari (BA) e no complexo do Rio de Janeiro, ligadas ao processamento de óleos aromáticos pesados.
Uma variação de 31 vezes em FOB — de US$ 244 mil para US$ 7,9 milhões — não se explica por flutuação de preço ou câmbio. O negro-de-carbono é negociado em mercados de commodities industriais com variação de preço tipicamente na faixa de 5% a 20% ao ano. Para gerar um salto de 3.000%, é necessário um aumento de volume na mesma ordem de grandeza.
O Chile tem perfil industrial consistente com esse tipo de demanda: possui uma indústria de pneus e borracha consolidada — principalmente para atender frotas de mineração, que operam alguns dos maiores caminhões fora-de-estrada do mundo nas minas de cobre do norte do país (Chuquicamata, Escondida, Collahuasi). Pneus para equipamentos pesados de mineração consomem quantidades expressivas de negro-de-carbono de alta especificação.
A entrada do Chile no topo do ranking corresponde a uma contração dos demais destinos — de 99,2% agregado em 2024 para 44,9% em 2025. Esse deslocamento tem duas leituras possíveis:
A primeira é que o Brasil ampliou sua capacidade de exportação de negro-de-carbono em 2025 — aumento de produção, queda de demanda interna ou aumento de capacidade ociosa — e o Chile absorveu o volume incremental. A segunda é que o Chile substituiu fornecedores anteriores (tipicamente asiáticos ou norte-americanos) pelo fornecedor brasileiro, sem necessariamente haver crescimento de volume no país destinatário.
O YTD de 2026 (janeiro a abril) confirmando a liderança chilena sugere que não se trata de operação spot ou arbitragem sazonal.
A 55,1% de participação, o Chile representa concentração relevante, mas não na escala de risco da Dinamarca nos tubos metálicos. Há, portanto, ao menos 44,9% do volume distribuído em outros destinos — o que dá uma base mínima de diversificação.
O monitoramento relevante aqui é se o crescimento chileno coincide com ou compete contra a demanda interna brasileira de negro-de-carbono — um insumo crítico para o setor de pneus nacional, que abastece tanto montadoras quanto o mercado de reposição. Se a indústria local estiver em ciclo de expansão, a disponibilidade para exportação pode se contrair rapidamente.
O crescimento da demanda chilena por negro-de-carbono pode ser lido em conjunto com a expansão do setor de mineração no país — o preço do cobre se manteve em patamares elevados ao longo de 2024-2025, incentivando investimentos em capacidade produtiva nas grandes minas. Mais produção de minério significa mais equipamentos pesados, mais pneus, mais negro-de-carbono.
Se esse vetor de demanda se mantiver, o corredor Brasil→Chile em 2803 tem sustentação estrutural. Se for pontual — ligado a estocagem preventiva ou a um único contrato —, o dado de 2026 completo vai revelar a tendência.
Fonte: MDIC ComexStat. Dados anuais 2025, SH4 2803, fluxo exportação. Comparativo com mesmo período de 2024.
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