Da posição #35 ao primeiro lugar: a Alemanha concentra 25% das exportações brasileiras de aço laminado frio no acumulado de 2026, saindo quase do zero.
A Alemanha não aparecia nem perto do radar no ano passado. No primeiro quadrimestre de 2025, o país ocupava o #35 no ranking de destinos do aço laminado frio plano brasileiro — com US$ 143 em FOB total e share praticamente nulo. Doze meses depois, é o #1, concentrando 25,3% de todas as exportações brasileiras dessa categoria no mesmo período de 2026, segundo o MDIC ComexStat.
O salto de 34 posições em um único ciclo anual é incomum para um produto tão específico. O aço laminado frio plano de largura ≥ 600 mm é insumo industrial de precisão — usado em linhas de estamparia automotiva, fabricação de eletrodomésticos e estruturas metálicas de alta especificação. Não é o tipo de commodity que muda de rota de embarque sem uma razão estrutural por trás. O FOB acumulado no período chegou a US$ 27,3 mi, partindo de cerca de zero. É uma entrada comercial que, na prática, equivale a uma estreia: em 2025, a Alemanha simplesmente não comprava esse produto do Brasil em volume relevante.
O setor siderúrgico europeu passou por uma reestruturação de oferta nos últimos 18 meses. Com a pressão de custos energéticos e a aplicação de salvaguardas europeias sobre aço de origem asiática, produtores alemães — especialmente no segmento automotivo — ampliaram a busca por fornecedores alternativos fora do bloco. O Brasil, com capacidade instalada ociosa nas usinas integradas de Minas Gerais e produção certificada para padrões europeus, entrou nessa janela. A desvalorização do real frente ao euro ao longo de 2025 e início de 2026 também contribuiu para o diferencial competitivo. Preço em BRL convertido para euro ficou atrativo num momento em que a Europa precisava de alternativa ao aço da Ásia — alvo de sobretaxas crescentes em Bruxelas.
Um único destino com 25% do total gera concentração de risco relevante. Se a demanda alemã recuar — por desaceleração da produção automotiva, revisão de contratos ou retomada de fornecedores locais — o impacto sobre o setor exportador brasileiro seria imediato e visível. Não há colchão de outros mercados europeus que compensem no curto prazo. Por outro lado, a entrada da Alemanha no topo abre precedente comercial: usinas brasileiras com certificação para o mercado alemão têm argumento para escalar para outros destinos europeus que aceitam especificações similares. O porto de Santos, principal ponto de embarque de laminados planos no Brasil, já opera com frequência de navios para o norte da Europa.
O volume acumulado em quatro meses já sinaliza que não se trata de uma operação pontual. A questão é se a demanda alemã vai se sustentar no segundo semestre de 2026, quando o ciclo de reposição de estoques siderúrgicos na Europa tende a desacelerar. O monitoramento das próximas remessas — especialmente se o ritmo de maio e junho se mantiver — vai mostrar se essa é uma parceria estrutural ou uma abertura de janela oportunística.
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