Brasil depende quase que exclusivamente do vizinho para suprir demanda interna por óleo de soja, gerando uma vulnerabilidade considerável no setor alimentício.
O Brasil opera com uma única perna no mercado de óleo de soja importado. Em 2025, o Paraguai forneceu incríveis 97,7% do total de óleo de soja adquirido pelo país, que somou US$ 109,4 milhões. Este nível de concentração, evidenciado por um Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) de 0.955, posiciona o fluxo comercial em um patamar de altíssimo risco, onde quase a totalidade do abastecimento depende de um único parceiro, com apenas nove países participando do mercado de importação.
A proximidade geográfica e os laços comerciais facilitados pelo Mercosul naturalmente favorecem o Paraguai como fornecedor de commodities agrícolas para o Brasil. No entanto, o nível de dependência do óleo de soja ultrapassa a mera conveniência logística, transformando-se em uma fragilidade estrutural. A quase exclusividade paraguaia significa que qualquer abalo na produção do vizinho, seja por condições climáticas adversas, como secas ou inundações, ou por instabilidade política e mudanças abruptas em suas políticas de exportação, teria um impacto direto e imediato na cadeia de suprimentos brasileira. Empresas nacionais que dependem dessa matéria-prima para a indústria alimentícia, de biocombustíveis ou outras aplicações industriais estariam sujeitas a flutuações de preço e, mais grave, à escassez. Essa situação contrasta com a busca por diversificação que o Brasil normalmente adota em outras frentes de comércio exterior, expondo um ponto cego na segurança alimentar e industrial.
Historicamente, o Brasil, sendo um gigante na produção de soja, sempre teve um balanço comercial superavitário no setor. Contudo, a importação de óleo de soja, mesmo que represente uma fração do volume total de esmagamento, é estratégica para equilibrar o mercado interno em períodos específicos ou para atender demandas regionais de forma mais eficiente. A concentração no Paraguai, embora possa refletir uma vantagem comparativa de custo no curto prazo, negligencia a resiliência da cadeia. Um cenário onde a oferta paraguaia se contrai não encontra amortecimento em outras fontes, forçando o mercado brasileiro a uma corrida por alternativas que demandariam custos de frete muito maiores e prazos de entrega mais longos, além de eventuais barreiras tarifárias ou não-tarifárias com novos parceiros.
Caso a relação comercial com o Paraguai para o óleo de soja enfrente reveses, as opções para o Brasil seriam limitadas e custosas. Argentina e Estados Unidos são grandes produtores globais, mas a importação dessas origens implicaria em custos de frete substancialmente mais elevados, além de potenciais desvantagens tarifárias em comparação com o Mercosul. A busca por novos fornecedores demandaria tempo para negociações, certificações e adaptação logística, o que é inviável em um cenário de choque de oferta. A indústria brasileira não teria como absorver rapidamente esses custos adicionais, que seriam repassados ao consumidor final, impactando a inflação e o poder de compra. Além disso, a simples percepção de risco na cadeia de suprimentos poderia levar a movimentos especulativos nos preços internos do óleo, mesmo antes de uma interrupção real no abastecimento. A ausência de um plano de contingência para um produto tão essencial é, por si só, uma ameaça ao planejamento estratégico das empresas e à estabilidade macroeconômica.
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