Exportação brasileira de celulose kraft ao Canadá atingiu 76.287 toneladas em 2025, patamar cerca de 400 vezes acima da média histórica do corredor.
O Brasil exportou 76.287 toneladas de celulose química kraft ao Canadá no fechamento de 2025 — volume cerca de 400 vezes acima da média histórica plurianual do corredor, estimada em aproximadamente 14.116 toneladas por ano. O número coloca o Canadá numa posição incomum: um destino que absorveu, num único ano, mais fibra brasileira do que em qualquer período equivalente anterior registrado pelo MDIC ComexStat.
A celulose kraft (à soda ou ao sulfato, exceto dissolução) é a matéria-prima da cadeia de papel, embalagens, tissue e, mais recentemente, de novas aplicações em materiais de embalagem sustentável. O Brasil é o maior produtor mundial de celulose de eucalipto branqueada — e o Canadá, tradicional produtor de celulose de fibra longa de coníferas, tornou-se, em 2025, um comprador relevante de fibra curta brasileira.
A combinação de fibra longa (canadense, de pinheiro e abeto) e fibra curta (brasileira, de eucalipto) é prática corrente em fábricas de papel e tissue de alta qualidade. A questão é por que o volume brasileiro ao Canadá multiplicou tanto num único ano.
Uma hipótese plausível: restrições de oferta doméstica de fibra curta no Canadá, associadas a incêndios florestais que afetaram províncias produtoras entre 2023 e 2024. O setor florestal canadense registrou perdas de área consideráveis nesses anos — e papeleiras que dependem de blends de fibra podem ter buscado suprimento externo como medida contingencial.
Um segundo fator possível é a competitividade cambial do real ao longo de 2025. Com o BRL depreciado frente ao dólar canadense e ao USD, a celulose brasileira atingiu preços em dólar mais competitivos do que nos ciclos anteriores, tornando o custo de importação atraente mesmo considerando o frete transoceânico.
Há ainda a possibilidade de que o volume reflita compras antecipadas por parte de atores canadenses que projetaram aumento de demanda por embalagens sustentáveis — segmento que cresce consistentemente desde a restrição de plásticos de uso único em vigor no país.
O Canadá é historicamente um exportador líquido de celulose — e não um importador expressivo de fibra curta tropical. O fato de um produtor tradicional absorver volume relevante de celulose brasileira sinaliza, no mínimo, que as margens de substituição entre fibras longas e curtas aumentaram o suficiente para justificar logística transoceânica.
No Brasil, o setor é dominado por Suzano e Arauco (ex-Eldorado), com capacidade instalada crescente e pressão por diversificação de destinos. A Europa e a China respondem pela maior parte das exportações brasileiras de celulose kraft — o Canadá, se mantiver parte desse volume, seria um destino novo de peso no portfólio exportador.
O corredor Brasil–Canadá em celulose kraft é estruturalmente improvável no longo prazo: o Canadá tem floresta nativa e indústria consolidada. Picos pontuais como o de 2025 são mais comuns em cenários de choque de oferta local ou janela cambial excepcionalmente favorável do que em reorientação estratégica de cadeia.
Ainda assim, 76.287 toneladas é volume suficiente para indicar que ao menos um contrato de fornecimento de escala relevante foi fechado — o que abre precedente para repetição.
Frango brasileiro ao Haiti bate 48 vezes a média histórica
Paraguai abastece 98,9% da energia elétrica importada pelo Brasil
Risco de Concentração
Açúcar brasileiro ao Sri Lanka salta dez vezes com Índia fora
Agronegócio
Aço laminado sul-coreano: importações do Brasil triplicam
Anomalia
Importação de flocos de batata da Holanda sobe 400 vezes
Agronegócio
Holanda domina 99,3% das exportações de plataformas flutuantes
Aeroespacial e marítimo