A Alemanha saltou do 35º para o 1º lugar no ranking de destinos das exportações brasileiras de aço laminado a frio (SH4 7209) em 2025. O FOB passou de US$
Em 2024, o Brasil praticamente não exportava aço laminado a frio para a Alemanha. O valor FOB registrado foi US$ 143 — menos do que o custo de transporte de uma bobina de amostra. No acumulado de 2025, a Alemanha ocupa o 1º lugar entre os destinos, com US$ 27,3 milhões e 25,3% de todo o produto exportado pelo Brasil nesta categoria. A subida foi de 34 posições no ranking. Quando um movimento dessa magnitude acontece em doze meses, não é coincidência nem ruído estatístico: é uma ruptura de rota comercial.
O SH4 7209 cobre laminados planos de ferro ou aço não ligado, largura igual ou superior a 600 mm, processados a frio e sem revestimento nem folheamento. Parece técnico, mas o uso final é concreto: painéis de carroceria automotiva, componentes de eletrodomésticos, peças de máquinas industriais. A indústria alemã — especialmente a cadeia automotiva em torno de Wolfsburg, Stuttgart e Munique — consome volumes contínuos desse insumo. Quando fornecedores tradicionais ficam caros ou escassos, os compradores europeus procuram alternativas.
A diversificação de fornecedores de aço se tornou prioridade estratégica na Europa a partir de 2022, quando os fluxos de aço russo foram cortados por sanções. A Alemanha, que importava volumes relevantes da Rússia e da Ucrânia, precisou cobrir esse gap rapidamente. Produtores brasileiros — em especial as usinas integradas do Sudeste — tinham capacidade instalada disponível e puderam atender pedidos em escala. O câmbio ajudou: o real desvalorizado ao longo de 2025 tornou o produto brasileiro competitivo no porto de Hamburgo frente a alternativas asiáticas e do Leste Europeu.
A variação de FOB representa um aumento de cerca de 191 mil vezes em valor absoluto. Isso soa absurdo até que se compreende o ponto de partida: US$ 143 equivale a praticamente zero — uma exportação pontual, provavelmente residual, sem canal comercial estabelecido. O que aconteceu em 2025 foi a abertura de um canal estruturado. Contratos de médio prazo, logística definida, termos de entrega negociados. O número deixou de ser residual e passou a ser relevante de verdade.
Com 25,3% de todo o SH4 7209 exportado pelo Brasil direcionado à Alemanha, o país europeu superou destinos que historicamente dominavam esse fluxo — como Argentina, Chile e Estados Unidos. Essa concentração num único parceiro pode ser interpretada de duas formas: como validação de um canal que funciona, ou como risco de dependência em caso de desaceleração da demanda alemã. Ambas as leituras são válidas e devem constar no planejamento de quem opera nesse mercado.
A União Europeia mantém salvaguardas sobre importações de aço, administradas via cotas tarifárias específicas por origem e categoria de produto. O Brasil opera com acesso dentro dessas cotas em algumas subcategorias de laminados planos. O risco é que, se os volumes brasileiros continuarem crescendo, a indústria siderúrgica europeia pressionará a Comissão Europeia por revisão das cotas ou redução dos limites de importação. O calendário de revisão das salvaguardas da UE é a variável mais importante a monitorar nos próximos trimestres.
Pra exportadores: o canal alemão está validado com volume expressivo e crescimento real. Se você produz SH4 7209 e ainda não tem representação comercial na Europa — distribuidor, agente ou escritório de vendas — este é o momento de estruturar essa presença. O risco de reversão existe, especialmente via revisão de cotas europeias. Acompanhe a Comissão Europeia e mantenha diversificação com outros destinos da região.
Pra importadores: se você compra aço laminado a frio de origem europeia e monitora competitividade de preço, o dado de US$ 27,3 milhões saindo do Brasil para a Alemanha indica que os produtores brasileiros estão entregando produto a preços competitivos no mercado europeu. Use esse benchmark nas suas negociações com fornecedores atuais — ele define um teto de preço implícito.
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