China segue na ponta do aço laminado plano importado, mas a fatia cai de 76,4% para 63,5% no acumulado de 2026, com o valor FOB recuando 12,6% em um ano.
A China continua na ponta do aço laminado plano que o Brasil compra de fora. Falamos de chapas e bobinas de aço folheadas ou revestidas, com largura a partir de 600 mm: a base de telhas, eletrodomésticos e carrocerias. O que encolheu foi a folga. No acumulado de 2026, de janeiro a agosto, as importações de origem chinesa somaram US$ 538.688.276 em valor FOB (o preço da mercadoria sem frete e seguro), contra US$ 616.051.968 no mesmo período de 2025. A variação é de -12,6%, e a posição 1º ficou intacta. A fatia conta o resto: a China passou de 76,4% para 63,5% do total importado.
Ranking estável engana. Em 2025, a cada cem dólares gastos com esse tipo de aço, perto de 76 iam para usinas chinesas. Em 2026 são pouco mais de 63. Cerca de 13 pontos percentuais trocaram de mãos em um ano, e a conta só fecha de um jeito: o Brasil comprou mais das outras origens. Se o total importado tivesse encolhido no mesmo ritmo da China, a participação mal teria se mexido. Em vez disso, a fatia caiu mais que as vendas, sinal de que outros fornecedores ocuparam o espaço aberto. Trata-se de substituição de origem em câmera lenta, e o ranking, sozinho, não deixa ver. O dado também afasta a leitura de que a China deixou o mercado: ela segue vendendo mais que todos os outros fornecedores somados.
Os números não dizem por quê, mas o contexto brasileiro dá pistas. O governo federal vem protegendo a siderurgia nacional com cotas e tarifas sobre o aço importado. O histórico de processos de antidumping (sobretaxa contra preço considerado abaixo do custo) contra planos chineses pesa na decisão de quem compra. Importador amarrado a um só país carrega risco regulatório, então diversificar virou gestão de risco, não luxo. O câmbio entra na conta de qualquer compra em dólar. São hipóteses coerentes com o padrão. O calendário também conta: contratos fechados em 2025 chegam ao porto em 2026, e parte do efeito de qualquer mudança de política só aparece com atraso. Nenhuma está confirmada nos dados oficiais do comércio exterior (MDIC, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Para quem opera, o mercado ficou menos concentrado, ainda que longe de equilibrado. Uma fatia de 63,5% continua sendo dependência alta. Compradores de bobinas revestidas e chapas folheadas ganham mais opções de fornecimento e mais poder de barganha em preço e prazo. A siderurgia brasileira enfrenta menos pressão de um único rival, mas não de graça: outras origens chegam com preços e condições comerciais próprios. Mudar de origem também mexe na papelada: certificados de qualidade, inspeção de lote e licenciamento junto à Receita Federal, com cargas chegando a portos como Santos ou Paranaguá. Quem planeja estoque precisa comparar prazo de entrega e frete, que variam bastante entre fornecedores asiáticos e de outras regiões. Como mostramos em Fatia da Argentina no alumínio brasileiro cai à metade, a perda de espaço de um grande parceiro costuma reorganizar a cadeia inteira de metais.
Três pontos merecem acompanhamento nos próximos meses. O primeiro é se a fatia chinesa se estabiliza perto de 63,5% ou continua cedendo. O segundo é o valor importado de cada origem alternativa, que este recorte não detalha e que o painel de importações desse aço mostra mês a mês. O terceiro é qualquer decisão da Camex (Câmara de Comércio Exterior) sobre cotas e antidumping, porque mudança de tarifa reescreve contrato rápido. Ranking estável com fatia em queda pode anteceder troca de líder, ou ser só ajuste de carteira. Os dados ainda não separam uma coisa da outra. Vale cruzar esses dados com o preço médio por tonelada, que mostra se a China perdeu espaço por volume ou por preço.
Concentração de três quartos só se sustenta enquanto o preço paga o risco. Em 2026, o risco começou a cobrar. Por ora, a conta aparece na fatia.
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