No acumulado de 2026, os Emirados Árabes detêm 19,4% do açúcar brasileiro exportado — US$ 144 mi em cinco meses, contra 5,4% no mesmo período de 2025.
Os Emirados Árabes Unidos entraram no radar do agronegócio açucareiro brasileiro com força incomum. No acumulado de janeiro a maio de 2026, o país concentrou 19,4% de todo o açúcar de cana e beterraba exportado pelo Brasil — um share que era de 5,4% no mesmo intervalo do ano anterior.
O valor FOB acumulado até maio de 2026 chegou a US$ 144 mi embarcados para Dubai e Abu Dhabi. Para ter dimensão: o share de 19,4% representa quase o dobro do que o destino captava há doze meses. No mesmo período de 2025, o FOB para os Emirados era residual — os dados do MDIC registravam participação de 5,4%, muito abaixo do patamar atual.
A concentração chama atenção não pelo volume absoluto — o Brasil exporta centenas de milhões de dólares mensais em açúcar — mas pela velocidade do salto. Um destino que representava pouco mais de um vigésimo das exportações passou a capturar quase um quinto. Isso não é flutuação de safra.
Algumas hipóteses cabem nos números, sem que os dados do MDIC permitam cravar causalidade. Os Emirados funcionam como hub de reexportação para mercados do Oriente Médio, África Oriental e parte do Golfo Pérsico. Uma rodada de compras acima do normal — seja por antecipação de demanda regional, seja por substituição temporária de outro fornecedor como Tailândia ou Índia — se reflete diretamente no share brasileiro.
US$ 144 mi em cinco meses também sugere que há contratos de médio prazo no jogo, não apenas compras spot. Para exportadores do centro-sul, especialmente os que operam pelo porto de Santos e embarcam sacos de 50 kg para o corredor Oriente Médio-Golfo, esse movimento muda o cálculo de capacidade alocada para o segundo semestre.
Quando um único destino sai de 5,4% para perto de 20% em cinco meses, dois cenários se abrem. No primeiro, a demanda local dos Emirados cresceu de fato — a urbanização acelerada do Golfo alimenta o processamento de alimentos industrializados, que consome sacarose em volume. No segundo, o país está operando como entreposto, e parte do açúcar embarcado vai re-sair com destino a terceiros mercados.
O risco de concentração é real. Se esse parceiro suavizar as compras no segundo semestre — o que é plausível dado o padrão de demanda regional e a concorrência de origens como Tailândia e Guatemala — o impacto sobre a série brasileira seria imediato e desproporcional. Diversificação de destino é a resposta clássica, mas as usinas do centro-sul têm contratos fechados que limitam a flexibilidade no curto prazo.
O dado de junho será indicativo. Se os Emirados mantiverem participação acima de 15%, o novo patamar é estrutural. Se cair abaixo de 10%, foi uma janela de compra concentrada e o share vai convergir de volta para a média histórica. Vale também cruzar com o calendário de entressafra na Índia — quando a oferta indiana aperta, o Brasil tende a ser chamado para cobrir o vácuo via hubs do Golfo.
Para quem acompanha o mercado de açúcar pelo MDIC ComexStat, vale observar o spread entre FOB e CIF nessa rota: o frete para o Golfo Pérsico tem ficado pressionado, e a margem líquida para o produtor pode estar comprimida mesmo com o volume elevado.
A última vez que um único destino saltou dessa forma no share do açúcar brasileiro foi durante a pandemia, quando a demanda de estoques preventivos criou picos de concentração que evaporaram em dois trimestres. Pode ser diferente desta vez — mas o histórico pede cautela.
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